sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Entre o que é dito e o que é escrito
o que fará mais sentido?
A palavra escrita ri-se da palavra dita
com o desdém dos monarcas aos seus subalternos.
Poeta foi dado à mudez.
Essa disfunção das cordas vocais
seria dom ofertado por um deus por demais generoso,
àqueles que escrevem.
O papel é um filtro para as insanidades,
coa e dá corpo ao que realmente deveria ser dito.
Pudera eu ser um grande letreiro
que desprezasse até o conhecimento das mímicas.
Silêncio é um estado de espírito.
Só por isso deveria ganhar a alcunha de nirvana moderno.
Silêncio tem vez que é um bem.
Tenho sustentado que é o mais valioso em minha residência.
Impenhorável, pois nada teria igual valia,
Insustentável, pois a escrita lhe viola a existência.
Se parasitam os dois, mutuamente disputam seu lugar
ao meu lado da cama.
Fornicam sempre que posso
e temo que acordem os vizinhos.
Há livros que gritam tão alto
que me ensurdecem semanas a fio.
Livros são bocas humanas,
Fazem reverberar o que dizem mesmo depois de fechados.
São surdos de alma os que a isto não entendem.
Os cegos são capazes de sinestesia,
tateiam o grito e em braile tateiam-lhe a forma.
Creio não ter estrutura para igual emoção.
A qualquer que lhes falte qualquer dos sentidos,
seria para mim o leitor de maior sedução.
Até os que são dados à apatia,
se lhes causasse qualquer sensação,
seria para mim triunfo maior do que tornar-me Imortal.

Meu pai outrora me disse para ter ambições:
Eis as que pude arrolar.

[Aline Nunes]


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