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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011


"..Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. Nada agüenta mais nada. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe… Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca… Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade.."

[Mário Quintana]

quarta-feira, 21 de julho de 2010


Há coisas que a minha alma, já mortificada não admite:
assistir novelas de TV
ouvir música Pop
um filme apenas de corridas de automóvel
uma corrida de automóvel num filme
um livro de páginas ligadas
porque, sendo bom, a gente abre sofregamente a dedo:
espátulas não há… e quem é que hoje faz questão de virgindades…
E quando minha alma estraçalhada a todo instante pelos telefones
fugir desesperada
me deixará aqui,
ouvindo o que todos ouvem, bebendo o que todos bebem,
comendo o que todos comem.
A estes, a falta de alma não incomoda. (Desconfio até
que minha pobre alma fora destinada ao habitante de outro mundo).
E ligarei o rádio a todo o volume,
gritarei como um possesso nas partidas de futebol,
seguirei, irresistivelmente, o desfilar das grandes paradas do Exército.
E apenas sentirei, uma vez que outra,
a vaga nostalgia de não sei que mundo perdido…


[Quintana]

segunda-feira, 10 de maio de 2010


As coisas que não conseguem ser
olvidadas continuam acontecendo.
Sentimo-las como da primeira vez,
sentimo-las fora do tempo,
nesse mundo do sempre onde as
datas não datam. Só no mundo do nunca
existem lápides… Que importa se –
depois de tudo – tenha “ela” partido,
casado, mudado, sumido, esquecido,
enganado, ou que quer que te haja
feito, em suma? Tiveste uma parte da
sua vida que foi só tua e, esta, ela
jamais a poderá passar de ti para ninguém.
Há bens inalienáveis, há certos momentos que,
ao contrário do que pensas,
fazem parte da tua vida presente
e não do teu passado. E abrem-se no teu
sorriso mesmo quando, deslembrado deles,
estiveres sorrindo a outras coisas.
Ah, nem queiras saber o quanto
deves à ingrata criatura…
A thing of beauty is a joy for ever
disse, há cento e muitos anos, um poeta
inglês que não conseguiu morrer.


[Mario Quintana]

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009


"É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te"


[Mario Quintana]

quarta-feira, 28 de maio de 2008

"..Vou apitar chamando os guardas, os anjos, Nosso
Senhor, as prostitutas, os mortos!
Venham ver a minha degradação,
A minha sede insaciável de não sei o quê.."

[Quintana]


___-___


"-Me leva daqui.
Eu sempre quis fugir de algo que a mim nunca se mostra.
Sempre quis fugir dessa coisa vã de se estar vivo e viver assim, medíocre.
Nada disso parece saciar.
Mas o meu mal é não ter metas. Coisa mais triste aí não há.
Eu nem sei mesmo onde pretendo chegar e nem sei se é isso que quero."

Há o lado bom de se estar perdida. Há sempre a ânsia de se encontrar, mas acabar por se perder mais ainda.
Me perco sempre nessas ruas, me falta senso de direção e algo ou alguém que me oriente.
Me perco sempre em tantas vidas, eu coabito tantas delas.
É muito braço, muito lábio, muita perna. E eu sou só o ser mais só.
Que eu me quero e vejo assim, simples co-habitante, coadjuvante da cena alheia.
E é dessa forma que eu me gosto.
Eu não sei permanecer e roteiros e contratos me causam um mal estar tamanho.
É como estar de mal comigo. Tanta premeditação me remete a uma clausura das mais fundas do planeta.
Lá por onde o magma corre. Seco, quente e abafado.
È louvável saber partir. Se emprestar a certas coisas e depois se retirar.
E por mais rude que soe e, por deus, sem egocentrismo algum, eu agora me empresto.
E isso, convenhamos, pra quem que não garante permanência, é o mais sensato a se fazer.
Eu não nego companhia. Nem abraços, nem sorrisos. Carinho é coisa das mais bacanas.
E é o que eu deixo de mim. É o que tenho guardado de quem, assim como eu, não soube ficar.
Se doar é uma façanha pra poucos e, das mais árduas.
Só pode quem ama em tamanho extra-grande.
E a mim, o que fora do amor reservado, eu já sorvi.
Só que eu não sirvo mais pro choro. Eu cresci mais do que o que é saudável para uma pessoa crescer.
Eu envelheci pra bem mais dos vinte anos que no mês passado fiz.
E a vida perdeu muito do gosto, talvez por causa do cigarro ou da mesmice enjoativa.
É muito braço, muito lábio, muita perna. Vez ou outra isso me cansa.


___-___

Comecei a tomar Ritalina, talvez agora meus poemas passem a ter começo, meio e fim.

That's all folks"

*estou encantada pelos comentários deixados aqui. =]