quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Se foi uma praga, obteve êxito. Ninguém ao longo dos anos me amou mais, nem melhor que você.
Às vezes o amor, esse multifacetado desconhecido, num momento de cor, parece arrebatar-me a ponto de me bastar, mas resta o momento seguinte que é sempre negação, nunca deleite, pra me lembrar do amor que tive e nunca permiti.
Resta o amargo no fundo do copo e o descaso da manhã seguinte insistindo em ser dia e não noite, como queria meu peito. Sobra sempre o desejo de ter sido maior e que pelo físico, juventude, física e outros tantos motivos estúpidos, não fui. Algo como um arrependimento incerto por saber de si, mas não saber ao certo dos métodos contraceptivos que evitariam sua concepção malquista, é o souvenir herdado desse amor que cansou de sua (minha?) inconstância e resolveu por bem abster-se de ser. Embora eu saiba enumerar os erros e os inconvenientes todos e deles não me esquive ou perdoe, eu nada pude fazer para mascarar os sintomas do meu despreparo em saber receber o que a mim fora ofertado sem pudor ou recato – regalo maior do que soube merecer. Existem coisas pelas quais não se pede perdão, pois se sabe que não se perdoam de fato. Disso me conformo e carrego o fardo. Falta palavra que apague o passado, termo qualquer que feito paulada, providencie amnésia instantânea capaz de apagar os vestígios do estrago e faça com que tudo retorne ao seu status quo ante. Haja Cointreau pra digerir tudo isso, para que de tempos em tempos não se rumine essa perda.

[Aline Nunes]

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

"Sumi porque só faço besteira em sua presença, fico mudo
quando deveria verbalizar, digo um absurdo atrás do outro quando
melhor seria silenciar, faço brincadeiras de mau gosto e sofro
antes, durante e depois de te encontrar.
Sumi porque não há futuro e isso não é o mais difícil de
lidar, pior é não ter presente e o passado ser mais fluido que o ar.
Sumi porque não há o que se possa resgatar, meu sumiço é
covarde mas atento, meio fajuto meio autêntico, sumi porque
sumir é um jogo de paciência, ausentar-se é risco e sapiência,
pareço desinteressado, mas sumi para estar para sempre do seu
lado, a saudade fará mais por nós dois que nosso amor e sua
desajeitada e irrefletida permanência."

[Martha Medeiros]