sábado, 13 de setembro de 2014

Os sonhos compõem outros sonhos
Que se adequem à realidade vivida
Por mais  que recrie meus planos
E por melhor roupagem que lhes conceda
O principal é sempre onipresente

A fidelidade que reservo à essa arte
Não me permite originalidades em matéria de sonho.
Tudo que amo reside na escrita
Que como o deus dos que crêem
Salva os que a ele se dão
E condena quem dele se afasta.

Eu posso tão pouco ante às suas investidas,
Tua cruel sedução
Sopra versos à nuca do meu conformismo.

Eu sei da tua espera por mim
No entanto, envelheço e temo que meus versos se tornem
Menos poéticos do que jurídicos.

Que tristeza vir ao mundo e não ser.
Que sufocamento e clausura.
É a pedra de Sísifo,
É o trabalho infindável,
A amputação de membros que se regeneram;
O corte dos galhos que renascem insistentes.

Quem nasce com a arte e não pare
Abortá-la não pode sem que se dê igual fim.

[Aline Nunes] 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

To be Surprised - Sondre Lerche


















"..When I wrap my arms around you 
Every mistake we made crumbles 
When I wrap my arms around you 
Everything echoes a new song.."

sábado, 23 de agosto de 2014

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo 
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.


quinta-feira, 6 de março de 2014

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.

[Carlos Drummond de Andrade]