sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Deixe-me com meus Caetanos
Que a solidão me é querida.
No meu encontro comigo,
Eu mesma sirvo a bebida.
Sozinha rio da vida,
Não faço sala, e não há despedida.

Desempoeirar os gostos da gente
É tornar-se agradável às visitas.
No meu happy hour solo
As conversas são sempre banais e densíssimas.
Se calam os televisores e as notícias
E tudo o mais que me toma a saúde.
(Menos de sirenes, senhores, e mais de alaúdes.)

A vida exige um tratar-se bem
Antes que a alma pereça
O corpo tem mais resistência,
Mas alma, uma vez que se perde,
Nos torna habitat natural da aspereza.

Quando me vejo austera
Comigo e com os que me são divinos,
Recorro ao divã da poesia,
Bethanizo os maus espíritos,
Quintanizo melancolias
e tudo que poria a perder minha essência,
daquilo que sou, destoa
(menos de pesares, senhores, e mais de Pessoa).

 Se por desventura entristeço,
Sozinha em meu apartamento,
Há um arsenal de alegrias,
De diferentes gramaturas,
De incantáveis melodias.

O silêncio compõe sinfonias
Que se mostram aos que não estão dispersos.
Há que saber afinar o corpo com os próprios gestos.
Ler-nos as feições no espelho,
Ouvir o tom de nossa voz.
Saber-se quando larva e quando borboleta
Respeitar em si o toque de recolher,
(menos de libertinar, senhores, e mais de se conter).

Das benesses que a solitude é capaz de prover,
Triunfa o auto-conhecimento,
Tornar-se íntimo de si e consigo prazerosamente conviver.
Maior grau de independência ainda não foi revelado.
Sejamos cada vez mais nossos, antes de nos deixarmos pertencer.

[Aline Nunes]


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Há um certo ponto na estrada
Do qual não mais se enxerga o retorno.
Todas as coisas vividas e sonhadas trouxeram-me
A este lugar e a esta pessoa.
Aqueles que nos cruzam o caminho
São como placas à beira da estrada
Nos indicando o quanto nos falta andar
Até chegarmos ao nosso destino.
Ela seria o fim da linha,
Se a pobreza da expressão
lhe permitisse que fosse.
Lhe faz jus ser a terra prometida, Pasárgada,
Recanto pelo o qual buscava.
E com a minha chegada,
Minhas pernas se cruzam
Qual os braços o fazem
Quando nos conferem a personalidade das pedras.
E presumo então ser preciosa,
Visto que agora reluzo e permito-me ser lapidada.
Permanência me é dom ainda novo
Corresponde aos meus ancestrais e não a rechaço.
Ainda que eu me criasse da minha própria costela,
E as minhas próprias regras ditasse,
Tendo regra de conduta autoral
Alheia ao que me fora imposto,
Há coisas que na psique me causariam embaraço
Ao meu querer-me andarilha,
Dona dos meus próprios passos.
E isso me é de bom grado.
A ela meus pés acompanham
Em um valsar coordenado.
E se deitam ao seu lado, gastos,
Mas nunca cansados.
Está-la é o verbo correto.
Intransitável, do presente mais que perfeito.
Vivê-la é tão gratificante
Que eu deveria casar-me com ela
Dia após dia,
até que os dias findassem.
Pouco do mundo me fora tão precioso
Quanto aproveita-la a presença e a perenidade.
Se eu soubesse como ser mais grata,
O faria de imediato,
mas ignorante que sou dos sentimentos ainda inominados,
lhe dedico minha adoração e amor
e, sobretudo, sua continuidade.

[Aline Nunes]

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Entre o que é dito e o que é escrito
o que fará mais sentido?
A palavra escrita ri-se da palavra dita
com o desdém dos monarcas aos seus subalternos.
Poeta foi dado à mudez.
Essa disfunção das cordas vocais
seria dom ofertado por um deus por demais generoso,
àqueles que escrevem.
O papel é um filtro para as insanidades,
coa e dá corpo ao que realmente deveria ser dito.
Pudera eu ser um grande letreiro
que desprezasse até o conhecimento das mímicas.
Silêncio é um estado de espírito.
Só por isso deveria ganhar a alcunha de nirvana moderno.
Silêncio tem vez que é um bem.
Tenho sustentado que é o mais valioso em minha residência.
Impenhorável, pois nada teria igual valia,
Insustentável, pois a escrita lhe viola a existência.
Se parasitam os dois, mutuamente disputam seu lugar
ao meu lado da cama.
Fornicam sempre que posso
e temo que acordem os vizinhos.
Há livros que gritam tão alto
que me ensurdecem semanas a fio.
Livros são bocas humanas,
Fazem reverberar o que dizem mesmo depois de fechados.
São surdos de alma os que a isto não entendem.
Os cegos são capazes de sinestesia,
tateiam o grito e em braile tateiam-lhe a forma.
Creio não ter estrutura para igual emoção.
A qualquer que lhes falte qualquer dos sentidos,
seria para mim o leitor de maior sedução.
Até os que são dados à apatia,
se lhes causasse qualquer sensação,
seria para mim triunfo maior do que tornar-me Imortal.

Meu pai outrora me disse para ter ambições:
Eis as que pude arrolar.

[Aline Nunes]


quinta-feira, 30 de julho de 2015

O menino que carregava água na peneira - Manoel de Barros

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!



[Manoel de Barros]

sábado, 13 de setembro de 2014

Os sonhos compõem outros sonhos
Que se adequem à realidade vivida
Por mais  que recrie meus planos
E por melhor roupagem que lhes conceda
O principal é sempre onipresente

A fidelidade que reservo à essa arte
Não me permite originalidades em matéria de sonho.
Tudo que amo reside na escrita
Que como o deus dos que crêem
Salva os que a ele se dão
E condena quem dele se afasta.

Eu posso tão pouco ante às suas investidas,
Tua cruel sedução
Sopra versos à nuca do meu conformismo.

Eu sei da tua espera por mim
No entanto, envelheço e temo que meus versos se tornem
Menos poéticos do que jurídicos.

Que tristeza vir ao mundo e não ser.
Que sufocamento e clausura.
É a pedra de Sísifo,
É o trabalho infindável,
A amputação de membros que se regeneram;
O corte dos galhos que renascem insistentes.

Quem nasce com a arte e não pare
Abortá-la não pode sem que se dê igual fim.

[Aline Nunes] 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

To be Surprised - Sondre Lerche


















"..When I wrap my arms around you 
Every mistake we made crumbles 
When I wrap my arms around you 
Everything echoes a new song.."